‘Airsoft não é algo terrorista’, diz praticante do jogo que usa réplicas de fuzis e pistolas

Praticante de Airsoft diz que arma de brinquedo 'não é algo de terrorista'

Praticante de Airsoft diz que arma de brinquedo ‘não é algo de terrorista’

Quem pratica airsoft busca uma atividade que simula combates com armas realísticas em um cenário que imita favelas, casas abandonadas. Os jogadores podem circular entre carcaças de carros e estabelecimentos comerciais. O esporte virou febre em São Paulo.

No jogo de estratégia, é usado um armamento de pressão no qual se tenta acertar o adversário com bolinhas de plástico não letais. O problema, segundo a ONG Insituto Sou da Paz, é que essas armas, que precisam ter uma ponta laranja para se diferenciar das reais, têm sido adaptadas e desviadas para o crime.

O G1 visitou um campo de prática do esporte em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. O estande, instalado no estacionamento do Golden Square Shopping, tem 2 mil m². Para jogar é preciso pagar R$ 50 a hora, nos dias de semana, e R$ 70 nos fins de semana. Os fuzis têm capacidade para 400 tiros, as pistolas têm 40 disparos. A munição é uma bolinha de plástico com 6 mm de diâmetro e é chamada de BBS.

“Acho que não [é perigoso]. Porque os caras já vêm com a mentalidade de brincar e de diversão. Não é algo terrorista ou algo mais maldoso”, afirma Lavínia Correia, assistente de recursos humanos, num estande de airsoft em São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

Para Rodrigo Freitas, empresário do setor e um dos precursores do esporte no país, é preciso separar “os problemas”. “É importante saber distinguir as coisas. O que acontece é o contrabando visando o lucro e a sonegação de impostos. A exemplo de cigarros, bebidas e eletroeletrônicos, que as pessoas buscam em destinos como o Paraguai e os contrabandeiam para não pagar todos os impostos.”

Após 2 anos em queda, número de apreensões de armas de brinquedo cresce em SP

Após 2 anos em queda, número de apreensões de armas de brinquedo cresce em SP

Após dois anos de queda, São Paulo registrou um aumento no número de armas de brinquedo apreendidas. Foram 3.574 no ano passado – o que representa mais de 24% do total (14.758). No mesmo período, 11.184 armas de fogo foram recolhidas pela PM.

Entre os simulacros apreendidos estão airsofts, réplicas quase perfeitas das armas de fogo verdadeiras. O Instituto Sou da Paz considera que um dos fatores para explicar o aumento das apreensões de armas de pressão, entre elas os equipamentos de airsoft, ao fato de o Exército ter flexibilizado a possibilidade de pessoas adquirirem as armas nos últimos anos. Ainda de acordo com o Instituto, parte destas armas são apreendidas pela polícia como simulacros e são usadas por bandidos para cometer crimes.

“Apesar de ela ter um uso diferente e várias das pessoas fazerem um uso esportivo e de lazer, o que é perfeitamente legítimo, não dá para você ignorar o volume dessas armas [de airsoft] que estão sendo utilizadas no crime”, diz Bruno Langeani, coordenador do Sou da Paz.

Sobre o registro de apreensões de armas de airsoft usada em crimes, ele disse que são exceção. “Sobre a prática de crimes, eu comparo com as armas brancas, facas, espetos de churrasco, que estão em todas as casas e nem por isso serão utilizadas para cometer crime. Claro, tudo vai da educação, da índole da pessoa e da intenção de cada um. O airsoft é um esporte, é importante distinguir isso. As minorias, que vão usar isso de outra forma.”

O engenheiro Fernando Henrique de Carvalho pratica airsoft há dois meses e disse que é preciso usar redes sociais para conscientizar as pessoas a fazer a coisa certa. “Só em videogame, em jogos, não me interesso por armas de verdade, só as de brinquedo. Sempre estando dentro das leis, com as ponteiras laranjas não tem problema. Na internet, nas redes sociais é preciso conscientizar as pessoas, tentando mitigar quem não atende a lei, não é perigoso, tem de ser levado como esporte.”

Ele disse que nunca se interessou por armas verdadeiras e buscou o airsoft como entretenimento. “Na verdade é um esporte que exige esforço físico, estratégia, companheirismo, saber trabalhar em equipe.”

Um dos modelos de arma de airsoft possui semelhança realística (Foto: Glauco Araújo)Um dos modelos de arma de airsoft possui semelhança realística (Foto: Glauco Araújo)

Um dos modelos de arma de airsoft possui semelhança realística (Foto: Glauco Araújo)

Para Luciano Moraes, chef de cozinha e instrutor de tiro, o airsoft surgiu em sua vida depois do paintball por conta do realismo das armas. Ele pratica o esporte há 11 anos e investiu R$ 8 mil em equipamentos. Ele tem um fuzil equipado com lente de aumento, mira laser, tem farda, capacete, rádio de comunicação, pistola elétrica. “A intenção é essa, ser o mais realístico possível. Sou instrutor de tiro formado. Tenho arma, mas que não fica em minha posse, fica no clube de tiro.”

Moraes disse que a semelhança das armas de airsoft com as armas de verdade pode enganar até mesmo quem conhece de armamento. “É bem parecido, quem conhece arma só reconhece se pegar uma na mão. Só olhar não consegue reconhecer, tem de manusear.”

Ele não acredita que seja uma tendência o uso as armas de airsoft para cometer crimes. “Esse preconceito existe, mas é por falta de informação das pessoas. É como arma real, todos têm muita cisma com elas, mas elas são apenas uma ferramenta e ela não vai fazer nada sozinha, quem vai fazer o mal ou o bem é a pessoa.”

Praticantes de airsoft, em estande de São Bernardo do Campo, não consideram que armas de brinquedosejam um risco à sociedade (Foto: Glauco Araújo/G1)Praticantes de airsoft, em estande de São Bernardo do Campo, não consideram que armas de brinquedosejam um risco à sociedade (Foto: Glauco Araújo/G1)

Praticantes de airsoft, em estande de São Bernardo do Campo, não consideram que armas de brinquedosejam um risco à sociedade (Foto: Glauco Araújo/G1)

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