Beija-flores “adiam” venda de caminhão em Montes Claros (MG)


Aves fizeram o ninho na fiação do veículo; comerciante esperou os filhotes voarem para fechar negócio. Comerciante monitorou ninho de beija-flor construído na fiação de um caminhão
Apaixonado pela observação de aves, o comerciante Lucas Alves conhecia informações básicas sobre o beija-flor-tesoura, espécie muito comum no Brasil, exceto na região Amazônica. O que o morador de Montes Claros (MG) não imaginava, porém, é que a ave poderia escolher um caminhão para construir o ninho e abrigar os filhotes. “Na época eu percebi que ela entrava toda hora embaixo do baú de um dos caminhões estacionados no pátio. Resolvi averiguar e encontrei o ninho, já com dois ovos”, conta. No primeiro momento a preocupação tomou conta do empresário: o veículo não poderia ser utilizado até os filhotes voarem. “Não sabia se meu sócio aceitaria deixar o caminhão parado para proteger o ninho. Mas como ele sabe da minha paixão pelas aves, topou esperar”, lembra Lucas, que precisou mudar a estrutura de lugar para garantir a segurança dos filhotes. O ninho construído na fiação do caminhão precisou ser transferido para um local mais seguro
Lucas Alves/VC no TG
“O ninho estava na fiação da lanterna de sinalização do caminhão. Consultei dois amigos biólogos sobre a possibilidade de mudar o local do ninho e eles reforçaram a ideia. Daí peguei uma capa plástica que cobre baterias, cortei e fiz um suporte com arames”, diz. O processo precisava ser cauteloso, por isso, Lucas usou sacolas plásticas nas mãos para não alterar as condições do ninho. “Cortei os fios, removi o ninho com cuidado, coloquei no suporte e prendi no balão de ar do caminhão, a um metro de onde estava. Fiquei torcendo para que a fêmea voltasse”, conta.
A torcida, junto ao cuidado durante a operação, funcionou! “Ela retornou no mesmo dia. Eu ficava observando de longe, para não espantá-la”, completa o comerciante. Os filhotes voaram com 15 e 18 dias de vida, respectivamente
Lucas Alves/VC no TG
Vende-se Com o ninho protegido e os filhotes crescendo saudáveis, alimentados diariamente pela mãe, restava somente uma preocupação: a venda do caminhão. “Um comprador, conhecido nosso, chegou na loja após o nascimento dos filhotes e disse que ficaria com o caminhão. Então eu disse que não poderia entregar naquele dia, porque havia um ninho lá”, conta Lucas, que arriscou um bom negócio, mas completou sua ‘missão’. “O cliente prontamente disse que aguardaria os filhotes voarem. Mas a situação estava de um jeito que, se ele falasse que não podia esperar, nós estávamos dispostos a perder a venda”, completa.
Lucas adaptou suporte para transferir ninho de lugar
Lucas Alves/VC no TG
Novos admiradores
Atentos à família de beija-flores, Lucas e os colegas de trabalho puderam acompanhar de perto o desenvolvimento dos filhotes, que voaram depois de 15 e 18 dias do nascimento, respectivamente. “Assim que descobri o ninho desliguei as baterias, para não correr o risco de alguém ligar o caminhão. Os clientes olhavam o veículo no pátio, mas sempre com orientações de cuidado. Nós avisávamos sobre o ninho”, explica o comerciante, que depois da experiência notou maior interesse dos amigos pela natureza. O cuidado foi tanto que acabou contagiando toda a loja. Foi uma grande lição de respeito para todos
“Frequentemente recebo fotos de aves feitas por pessoas que antes não se interessavam pelo assunto. Elas buscam a identificação e querem saber como atrair aves no quintal. Isso nos motiva a seguir e insistir nesse caminho de proteger e preservar a natureza, por mais difícil que seja”, finaliza.

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