‘Essa dor nunca vai passar’: Chacinas deixaram 54 mortos e apenas 7 presos em dois anos em SP

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Nos últimos dois anos, pelo menos 54 pessoas foram mortas em seis grandes chacinas ocorridas na capital e na Grande São Paulo. E, pelos crimes, apenas sete suspeitos estão presos. São quatro policiais militares, dois GCMs (guardas civis metropolitanos) e uma mulher.

Na maior chacina do Estado, ocorrida em agosto de 2015, 23 pessoas foram mortas nas cidades de Osasco, Barueri, Itapevi e Carapicuíba. O promotor que acompanha o caso, Marcelo Oliveira, diz que três PMs e um GCM permanecem presos. “Dois recorreram, e dois vão ser submetidos ao Tribunal do Juri”, diz. Para ele, o fato de haver quatro presos para 23 mortes atesta que “muitos outros acabam ilesos”.

A promotora Sandra Reimberg afirma que, pela complexidade das investigações de chacinas, é de fato difícil encontrar todos os criminosos e puni-los. A opinião é compartilhada por Débora de Carvalho Aly, que ofereceu denúncia à Justiça quando quatro motoboys de uma pizzaria foram mortos, em setembro de 2015, na frente do trabalho.

Débora afirma que a maior dificuldade na resolução dos casos é que as provas vão enfraquecendo com o passar do tempo. “As testemunhas ficam com medo, esquecem os detalhes e caem em contradições, dificultando o andamento da apuração”, diz.

Foi o que aconteceu no caso dos motoboys. Quatro PMs chegaram a ser presos temporariamente, mas agora estão em liberdade. Com o inquérito finalizado, a mãe do motoboy Carlos Eduardo de Souza, 18, a doméstica Leila Montilha, 42, diz não acreditar mais na palavra “justiça”, embora ainda lute por ela.

Ronny Santos/Folhapress
CARAPICUIBA, SP, BRASIL, 27-04-2017 - ESPECIAL CHACINAS - Leila e mae do jovem Carlos Eduardo, morto em chacina em 2015, em frente pizzaria em que trabalhava como motoboy em Carapicuiba. (Foto: Ronny Santos/Folhapress, ESPECIAL)
Leila Montilha, mãe do motoboy Carlos Eduardo, morto em chacina em 2015

“O próprio delegado me disse para deitar a cabeça no travesseiro em paz, porque meu filho era inocente. Que estava no lugar e hora errados”, diz a mãe, chorando. Conhecido como Cadu, o jovem tinha o sonho de ser PM.

O pintor Fernando Luiz de Paula foi outra vítima. Viveu por 34 anos, até ser atingido por um tiro na testa enquanto tomava cerveja em um bar em Osasco (Grande SP), na chacina de 2015.

Naquele dia, outras 18 pessoas foram executadas no lado oeste da região metropolitana. Cinco dias antes, outras seis foram mortas a tiros na mesma área.

“Podem passar 10, 20, 30 anos que essa essa dor nunca vai passar. Eu morri junto com meu filho. Parece que, com o tempo, a dor só aumenta, nunca diminui”, desabafa a mãe do pintor, Zilda Maria de Paula, 64.

Ronny Santos/Folhapress
OSASCO, SP, BRASIL, 27-04-2017 - ESPECIAL CHACINAS - Zilda Maria de Paula, mae de Fernando Luis de Paula, morto com um tiro na testa na chacina de 13 de agosto de 2015, que veio ser a maior do periodo democratico da historia de Sao Paulo, em 2006. (Foto: Ronny Santos/Folhapress, ESPECIAL)
Zilda Maria de Paula teve quatro abortos antes de ser mãe do pintor Fernando

A mãe planejou por anos ter Fernando. Antes de conseguir engravidar, teve quatro abortos. “A gente queria e lutou muito para ter ele. Tudo isso para vir alguém e matar, como se fosse um nada. Mas vou lutar por Justiça até o fim da minha vida”, diz.

AGENTES DE SEGURANÇA

A especialista em segurança pública Camila Dias Nunes, da UFABC (Universidade Federal do ABC), explica que as chacinas são crimes que costumam ter a participação de agentes de segurança.

“Sabemos que, em boa parte, há comprovação de indícios ou suspeita de agentes públicos, em sua maioria, policiais militares. Embora não dê para cravar, as chacinas têm uma dinâmica vinculada à ação de agentes públicos: geralmente com touca, motos ou veículos e armas de militares.”

As mortes praticadas pelo crime organizado, segundo Camila, não são cometidas em locais públicos, não há várias vítimas e o corpo geralmente desaparece. “Os casos [de chacina] têm em comum jovens negros, de periferia e pobres. O que os associa ao mundo do crime e legitima essas atrocidades”, complementa.

Procurada, a Secretaria de Estado da Segurança Pública, sob a gestão Geraldo Alckmin (PSDB), não se manifestou sobre as declarações dos promotores.

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