FALTA DE CREDIBILIDADE

Passado um mês após o anuncio feito pelo Ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, sobre a nova destinação de parte da arrecadação das loterias federais, o presidente Michel Temer não enviou ao Congresso Nacional a medida provisória prometida, estabelecendo mais recursos para a segurança pública no país.

Ressalte-se que apenas um projeto de lei do Senado (PLS 248/2017), de autoria do senador Ronaldo Caiado, visa estabelecer o percentual de 2% da destinação das loterias federais para a Segurança Pública.

É um fato preocupante pois, logo após o anúncio feito pelo ministro, a Caixa Econômica criou nova loteria, a “Dia de Sorte”, com arrecadação destinada ao Ministério do Esporte, conforme consta do próprio site do banco, contrariando a expectativa de nova aplicação dos recursos.

Agora, diante da crise gerada pela justa reivindicação dos caminhoneiros, após fracassarem todos os meios de negociação, o presidente anuncia o emprego da Força Nacional para atuar na situação, por conta do fechamento de várias rodovias no país pelos manifestantes, ou seja, apela à Segurança Pública.

É certo que excessos devem ser coibidos, pois os efeitos da paralisação têm sido danosos à economia. Porém, será que só os manifestantes cometem excessos? Será que estão errados em não confiar na palavra do governo, exigindo uma publicação no diário oficial da União?

A julgar pelo que ocorreu com a promessa feita em relação às loterias, não é difícil crer na dificuldade dos manifestantes em confiar no governo.

O povo, de um modo geral, tem sofrido os efeitos danosos da alta dos combustíveis, que chegaram a aumentar pouco mais de 18% em um ano, quando a inflação anunciada pelo governo no mesmo período, baseada no IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor – chegou perto de 3%.

Com base nesses dados, amplamente divulgados pela imprensa, é possível constatar que há um grande fundo de verdade na revolta dos caminhoneiros e da população, que tem amargado valores escorchantes dos combustíveis, principalmente da gasolina, que tem custado perto de R$5,00 o litro.

Padecemos com a falta de uma malha ferroviária no país, a qual, se existisse, nos privaria de tantos problemas, demonstrando que não só o atual governo, como os antecessores, não realizaram nenhum planejamento estratégico sobre tão importante setor como é o dos transportes.

O enlace entre os fatos inicialmente isolados – destinação de verbas das loterias para a segurança pública e a manifestação dos caminhoneiros – se dá justamente na falta de credibilidade do governo, decorrente do não cumprimento de promessas ou da tomada de decisões que não têm eficácia na solução de problemas, ou, ainda, em ações que acabam por onerar ainda mais o capital e o trabalho, mormente este último.

Esta é a triste realidade de um país que visa sempre exportar o melhor de sua produção, a preços módicos para outros países, ao mesmo tempo em que submete os brasileiros ao consumo do que seria rejeitado pelos padrões de qualidade estrangeiros, pagando por isso preços altíssimos.

Enquanto não houver um pouco mais de patriotismo na condução da coisa pública, e essa não é uma idéia romântica, mas, sim, uma realidade para todos os países desenvolvidos, não teremos solução para nossos problemas.

Até lá, medidas paliativas serão adotadas para os problemas que surgirem, sem que mudanças maiores e mais profundas, como uma reforma tributária justa, que efetivamente beneficie o povo brasileiro, sejam adotadas.

De uma forma ou de outra, o contribuinte continuará a pagar caro por tudo nesse triste cenário, que não encontra solução no horizonte a médio ou até mesmo a longo prazo, graças à balburdia política em que vivemos.

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