Guerra de versões na Wikipedia | União omite corrupção e lustra imagem de políticos por meio da web

Na noite de 28 de março deste ano, um computador ligado à rede da Polícia Federal foi usado para alterar o verbete que apresenta a Operação Lava Jato na Wikipédia. Se antes o texto exaltava o Ministério Público Federal como o órgão que criou a força-tarefa, uma mudança pouco depois das nove da noite minimizou o papel dos procuradores, para dar protagonismo aos policiais na operação. “Após a deflagração da Lava Jato pela Polícia Federal, em março de 2014, o Ministério Público Federal em Curitiba criou uma equipe de procuradores para atuar no caso”, indicava o texto, que está no ar até hoje – uma mudança sutil, suficiente para demarcar, na principal enciclopédia digital colaborativa, quem teria dado os primeiros passos nos esforços anticorrupção.

Além de defender determinadas linhas narrativas da história recente do país, as redes do governo federal têm sido usadas, com frequência, para melhorar a imagem de políticos na Wikipédia. Em um período de dois meses logo depois das eleições de 2014, o verbete sobre o senador peemedebista e ex-ministro Romero Jucá, integrante do núcleo duro do presidente Michel Temer, teve oito alterações, todas a partir de computadores ligados ao Senado. Uma delas foi para excluir menções a uma suspeita de corrupção que custou a Jucá o Ministério da Previdência Social no governo Lula. Outra, para apagar uma referência a desacato a uma juíza eleitoral de Roraima em um caso de propaganda eleitoral indevida. A comunidade de editores da Wikipédia (que monitoram a página buscando qualificar as informações), porém, não deixou passar, e as mudanças foram revertidas pouco depois.

Também no período pós-eleições presidenciais, no fim da tarde de 28 de novembro de 2014, o senador Renan Calheiros foi alvo de uma edição a partir das redes da Serpro, empresa de tecnologia da informação do governo federal que presta serviços para instituições públicas. A primeira frase sobre o senador passou a ser uma bomba: “José Renan Vasconcelos Calheiros (Murici, 16 de setembro de 1955) é um ladrão, bastante aplicado como advogado e político brasileiro, atual presidente do Senado Federal do Brasil.” Três minutos depois, outra edição, da mesma rede pública, acrescentava: “Ex-comandante do PCC.” Novamente, as mudanças foram revertidas por editores atentos da Wikipédia.

Escrita de maneira colaborativa na internet e muito usada para pesquisas, a enciclopédia digital pode ser editada por qualquer um. A plataforma registra o Internet Protocol (IP) do usuário, além do horário e data das alterações.

Por meio de um robô que analisa cada alteração, tornou-se possível avaliar de quais redes foram feitas mudanças na enciclopédia digital. Descobriu-se, com isso, o uso indiscriminado da Wikipédia nas instituições governamentais brasileiras. Seja para editar informações relevantes sobre políticos, adicionar ou remover trechos da biografia de celebridades, emitir opinião sobre fatos históricos ou passar o tempo averiguando trivialidades, desde o fim de julho de 2014 (quando o robô foi ligado) ao fim de setembro deste ano, mais de 3 mil verbetes da Wikipédia foram alterados usando as redes de 59 instituições federais. A análise inédita é da agência Volt Data Lab a partir de milhares de registros do Brasil WikiEdits, o programa que monitora mudanças na enciclopédia digital realizadas a partir das redes dos três poderes da República.

Um ranking das redes mais usadas para alterações na Wikipédia mostra a Caixa Econômica Federal como instituição campeã em modificações nos verbetes – foram 1 617 vezes no período analisado. Câmara dos Deputados (874 mudanças), Ministério Público Federal (258) e o Senado Federal (221) aparecem em seguida. Nem mesmo o Supremo Tribunal Federal escapou, como mostra o gráfico abaixo.

Revista Piauí GRÁFICOS_VOLT DATA LAB

O interesse dos editores da Caixa Econômica, disparado o lugar onde mais se altera a Wikipédia, vai do esporte à política. Há certamente algum grande apreciador de surfe entre os funcionários – nada menos do que 158 edições no verbete da Liga Mundial de Surfe saíram de computadores do banco estatal. A imagem internacional do deputado federal e possivelmente candidato à Presidência Jair Bolsonaro também foi melhorada a partir de um computador ligado à Caixa. Pouco depois das sete da noite de 22 de março deste ano, alguém com acesso à rede ocupou-se de adicionar, na página em inglês do parlamentar, que ele aparecia em segundo lugar nas pesquisas eleitorais para campanha presidencial de 2018.

Somente na internet da Caixa, mais de 600 entradas da Wikipédia foram atualizadas, com variedade de assuntos, do verbete de Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, à série de televisão americana Hazel, a Empregada Maluca. A versatilidade dos interesses dos editores, a propósito, não é exclusividade do banco, mas uma característica comum às mudanças realizadas em computadores conectados às instituições federais.

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A maior parte das alterações ocorre em horário de trabalho e é feita por servidores públicos. É pouco provável que algum cidadão em visita às instituições use suas redes de wi-fi para atualizar a Wikipédia. O período da tarde é o mais usado para essa atividade, seguido pelas noites e pelo horário de almoço.

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Da rede da Câmara saíram edições consideráveis na biografia de membros da  Casa. Uma das modificações, feita na página do deputado João Henrique Caldas (PSB-AL), removeu da Wikipédia longos trechos de sua trajetória política, incluindo informações sobre seu pai, João Caldas, denunciado na Máfia das Sanguessugas. Suspeitas de enriquecimento ilícito do parlamentar e infidelidade partidária também foram removidas (cinco parágrafos inteiros). A biografia do deputado Ronaldo Lessa também recebeu um lustro a partir de um computador ligado à Câmara – duas vezes, na tarde de 28 de março deste ano, usuários tentaram apagar onze parágrafos com menções de corrupção do parlamentar alagoano do PDT. No mesmo dia, no entanto, editores da Wikipédia reverteram as omissões. As assessorias dos deputados não retornaram os pedidos de esclarecimentos da reportagem.

Questionada se possui alguma recomendação interna sobre alterações na Wikipédia, a Câmara informou que “não espera de seus servidores e prestadores de serviço que publiquem conteúdos ou promovam edições na Wikipédia”. Por isso, não definiu regras para o uso de sites colaborativos.

Com ou sem códigos de conduta, o fato é que, no período analisado, as redes de instituições federais foram bastante usadas para atualizar a Wikipédia. No total, foram 6 868 alterações em 3 593 verbetes entre meados de 2014 e 2017, uma média superior a doze edições diárias (contando apenas dias úteis).

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Embora nenhuma regra específica tenha sido criada para inibir os criativos editores, a febre de mudanças da Wikipédia a partir de redes do governo tem diminuído. Seria cansaço dos servidores? Sensação de impotência diante da enxurrada de malfeitos descobertos nos últimos anos? Independentemente da razão, na comparação entre 2015 e 2017, o número de edições foi reduzido.

De fevereiro ao fim de junho deste ano foram feitas apenas 603 modificações, queda de 36% sobre o mesmo período do ano anterior e 55% abaixo na comparação com 2015.

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É a partir do número de IP que o robô do Brasil WikiEdits, criado pelo programador natalense Pedro Felipe Melo Menezes, consegue identificar se a máquina faz parte da rede de computadores de instituições governamentais. “O robô foi programado para registrar todas as edições feitas na Wikipédia e, depois, comparar com os IPs dos órgãos públicos nas três esferas, que eu mapeei. Quando bate, ele publica de onde é o IP e qual foi a alteração feita”, explicou Menezes.

Assim o robô pôde flagrar, por exemplo, as mudanças no perfil do deputado federal Aliel Machado, da Rede, realizadas de um computador ligado à Câmara. Um assessor explicou que o nome do parlamentar estava errado (é Aliel Machado Bark, e não “Barc”). Mas, com acesso ao texto do artigo, por que não acrescentar a “coragem e a postura em defesa da sociedade” que seriam marcas do legislador paranaense? Passava um pouco das nove da noite de terça-feira, 26 de setembro de 2017, e, como se vê, ainda havia tempo para um elogio ao chefe antes de o expediente na Casa terminar.

Sérgio Spagnuolo

Keila Guimarães

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