Negócio quase fechado | Disney comprar a Fox é muito mais do que unir X-Men e Vingadores

Essa é a notícia mais importante do ano no cinema, talvez a mais importante da década: a Disney está prestes a fechar o negócio para adquirir a área de entretenimento da 21st Century Fox – basicamente as divisões de cinema e TV. O império da família Murdoch seria concentrado nas áreas de esporte e notícias, deixando o resto da empresa sob o comando do estúdio do Mickey. As negociações vem e vão há alguns meses, e as notícias mais recentes apontam que as duas empresas devem bater o martelo e anunciar a fusão semana que vem. A essa altura, claro, tudo ainda é especulação, já que negócios dessa estatura são resolvidos nos bastidores – vide a aquisição pela própria Disney da Marvel e da LucasFilm. O caso aqui é, obviamente, diferente. São números em uma escala absurda (especialistas sugerem um preço de 60 bilhões de dólares no negócio), de resultados ainda mais avassaladores. Nem tudo, vale salientar, é positivo.

Afinal, qual seria o interesse da Disney em um estúdio rival? Fãs de quadrinhos e sites que cobrem o universo geek logo se alvoroçaram com uma possibilidade óbvia: em uma fusão, os personagens da Marvel que hoje pertencem à Fox no cinema seriam unificados em um único universo. Na prática, os X-Men e o Quarteto Fantástico dividiriam o mesmo teto com Homem-Aranha, Vingadores e Guardiões da Galáxia. As possibilidades no cinema são infinitas. Os X-Men teriam um bem vindo reboot, o que não seria mal depois da chave de ouro que foi Logan, e o Quarteto Fantástico finalmente teria a chance de protagonizar um filme decente e alinhado com o que os personagens são nos quadrinhos: não super-heróis, e sim uma família de aventureiros e exploradores cósmicos, no que seria a primeira ficção científica da Marvel. Tudo excelente, certo?

X-Men enfrentam os Vingadores nos quadrinhos

Bom, nem tanto. O risco de a Marvel abandonar experiências cinematográficas mais arriscadas como Deadpool e o próprio Logan, além do terror juvenil Os Novos Mutantes, que estreia ano que vem, seria grande. Afinal, os filmes do Universo Cinematográfico Marvel, apesar de muito diferentes entre si, apresentam uma unidade em tom e execução – o que faz todo sentido, já que compartilham o mesmo universo. Como a noção de “universo” no cantinho da Marvel no quintal da Fox é mais elástica, existe espaço para experiências mais radicais; em uma tapeçaria única, esses pontos fora da curva se tornariam mais difíceis. Se existe uma esperança para um filme bizarro e carregado na meta linguagem como Deadpool são os números: dificilmente a Disney abandonaria uma série cujo primeiro filme custou pálidos 58 milhões de dólares, mas que fechou as contas com 780 milhões em caixa.

Mas super-heróis, acredite, são um pequeno fragmento a ser vislumbrado no negócio. O mais óbvio é a Disney estar de olho no extenso catálogo da Fox, que traz alguns dos maiores clássicos do cinema. É só fazer as contas. A Disney se prepara para investir pesado contra o Netflix no negócio de streaming, inaugurando seu próprio serviço em 2019. Para o público pode parecer contraproducente investir em mais um canal por assinatura, mas se o estúdio apresenta como opções uma série live action de Star Wars, maior diversidade em seu leque de super-heróis e clássicos como O Dia Que a Terra Parou, Patton, Cleópatra ou A Malvada, o investimento começa a parecer mais atraente. Outra possibilidade é a Disney usar a Fox como um novo selo para filmes adultos de orçamento médio, um deserto desde que o cinema dividiu-se entre os grandes candidatos a blockbuster (o que a Disney tem de sobra) e os filmes budget mínimo, como os que a Fox produz pelo selo Searchlight. Ter uma divisão voltada para filmes mais adultos, que não custam o PIB de um país pequeno e que possam dar um lucro modesto pode ser um plano razoável.

Avatar passaria a ser parte do catálogo da Disney… faz sentido!

É claro que nenhuma empresa deseja ter um “lucro modesto”, mas é a alternativa lógica quando existe uma canibalização de seus próprios ativos. A Disney, afinal, já lança duas animações gigantes por ano, três filmes da Marvel e ao menos um do universo Star Wars, além de projetos milionários como A Bela e a Fera e a nova versão de O Rei Leão. Na prática, o ano só comporta um número finito de lançamentos desse porte, e a empresa pode ser oxigenada com um equilíbrio maior entre os “filmes-evento” com projetos mais adultos, os candidatos a grandes prêmios do cinema que deixam a criatividade dos artistas “da casa” sempre estimulada. Nesse ponto de vista, a fusão da Disney com a Fox pode significar mais diversidade, mais espaço para cineastas e para projetos com diferentes objetivos, orçamentos e públicos.

Por outro lado, pode também significar monopólio. Do jeito que está hoje, a Disney fatura ao menos 1 bilhão de dólares a mais que seu competidor mais próximo, a Warner. Com o catálogo da Fox em mãos (estamos falando de Duro de Matar, Predador, Avatar, Os Simpsons, Planeta dos Macacos, Alien, Independence Day), não haveria nenhum estúdio que chegasse perto de tamanho poder de fogo. Mais ainda, sobrariam, além da Warner, a Universal, a Sony e a Paramount como únicos rivais. Com esse tamanho, uma nova Disney daria as cartas no mundo do entretenimento, alinhando boa parte da cultura pop consumida no planeta sob uma única visão, um único horizonte. Como se não bastasse a possibilidade do monopólio, também seriam centenas de profissionais ocupando hoje cargos executivos e administrativos na Fox contemplando o desemprego.

Você gostaria de ver essa cena no cinema?

Nunca uma jogada desse porte foi vista em Hollywood. Nos próximos dias as empresas devem fazer um anúncio se as negociações forem bem sucedidas, ou teremos de nos contentar com o silêncio caso as coisas fiquem como estão. De qualquer forma, é mais um movimento que chega para abalar o status quo de uma indústria que, em 2017, já viu parte de sua estrutura social ser fragmentada com as dezenas de casos de assédio envolvendo gente graúda que viu seu poder ruir num piscar de olhos. O mundo está mudando. Talvez o futuro pertença a corporações tão poderosas quanto um país. Se existe uma empresa com tanta bala na agulha, é a Disney. E, vamos combinar, se o Hugh Jackman surge como Wolverine, garras reluzentes, pronto para lutar ao lado dos Vingadores em Guerra Infinita, seria muito, mas muito legal.

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