O melhor da rodada da Berlinale até agora: ‘Infinite Football’, Karim e Idris Elba

Primavera Romena: Corneliu Porumboiu documenta o esporte bretão com humor

Rodrigo Fonseca
Movimento cinematográfico mais sólido dos últimos 18 anos, a Primavera Romana, criada em 2005 com A Morte do Sr. Lazarescu, deu mais um fruto suculento, revelado ao mundo no Festival de Berlim, nesta sexta-feira: Infinite Football. Nele, o diretor Corneliu Porumboiu (de A Leste de Bucareste) documenta as reflexões de um ex-jogador, transformado em burocrata após um se machucar nos gramados, que fala sobre como deveria ser uma pelada ideal, um estádio ideal, uma política esportiva ideal. A conversa dribla reflexões futebolísticas e marca um gol nos gramados da reflexão sociológica, ao usar o futebol como deixa para discutir formas de governo e corrupção – o tema preferido da Romênia nas telas.

Tem mais cinema romeno a caminho da Berlinale.68: na competição rola o esperado Touch Me Not, de Adina Pintilie, e, para a seção Panorama, foi selecionado o drama Lemonade, de Iona Uricaru, sobre a vida de europeus nos EUA.  

 

Deu Brasil nas conversas de corredor do Berlinale Palast por conta da experiência plástica do diretor cearense Karim Aïnouz (O Céu de Suely) nas instalações desativadas do aeroporto Tempelhof, na capital alemã, cidade onde ele vive há anos. A partir (e com) o local, ele construiu um exercício documental de cinema direto (sem qualquer intervenção no que é registrado) para mostrar a vida dos refugiados sírios, afegãos e iraquianos nos hangares desativados de um complexo aeronáutico simbólico da reestruturação berlinense do pós-Guerra. A partir da rotina dos habitantes do local, o cineasta constrói em Aeroporto Central um ensaio sobre ocupação urbana, indo da antropologia para o ensaio poético.   

Após o longa de Karim, o festival conferiu a estreia do ator e militante das lutas LGBT Ruppert Everett (de O Casamento do Meu Melhor Amigo) na direção de filmes de ficção com The Happy Prince. Exibida já em Sundance, esta agridoce reconstituição de época de uma Inglaterra conservadora revive o período de decadência moral e física do escritor Oscar Wilde (1854-1900) por assumir sua orientação homossexual. A trilha sonora de Gabriel Yared é um achado.

Berlim saiu ainda há pouco de seu filme mais aplaudido até agora: Yardie, thriller social dirigido pelo ator inglês Idris Elba, o “bonitão do momento” segundo a votação dos fãs de 007 para substituto de Daniel Craig no trono de agente secreto de Sua Majestade. Querem que ele seja o primeiro James Bond negro, e ele merece, não apenas por um binômio estético de carisma + talento, mas por ser uma das vozes mais ativas no pleito pela discussão de um revisionismo urgente na representação das identidade raciais. Há muito de Cidade de Deus (2002) na narrativa, o que é compreensivo para um filme com CEP do Reino Unido: lá, o longa-metragem de Fernando Meirelles é venerado até hoje. E Elba usa muito dos enquadramentos de César Charlone para narrar a história de D.(enis), vivido por Aml Ameen. O rapaz é um traficante jamaicano, fugido para solo britânico, que busca no crime meios para poder vingar a morte de seu irmão. Como ele atrapalha a cerimônia religiosa de adeus ao espírito do morto, tradição na Jamaica, o fantasma de seu maninho mais velho vai segui-lo pelas confusões que ele se mete com um chefão do tráfico. Tem ação na medida certa e muito suspense.

“Ex-Pajé”: erosão cultural

Sábado tem coisa inédita (e boa) de Luiz Bolognesi: o roteirista de Chega de Saudade (2007) e de Elis (2016) já surpreendeu seu público no passado ao dirigir uma animação – História de Amor e Fúria (2012) – e, agora, promete mais uma cota de surpresa, via Berlinale, onde exibe seu primeiro longa-metragem documental solo. Radiografia da ancestralidade, o ,doc Ex-Pajé vai ser projetado no pomposo Cine Star, amanhã (dia 17), às 20h, para uma plateia alemã afoita por entender a erosão das tribos indígenas do Brasil. Bolognesi parte dos feitos de um xamã fora de serviço para falar de como culturas milenares da selva estão sofrendo com o avanço predador dos cultos evangélicos mais fundamentalistas.  

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