O supervoluntário de 78 anos que percorre o Japão para ajudar vítimas de desastres

Conhecido como Super Voluntário, Haruo Obata foi homenageado pela cidade natal

Conhecido como Super Voluntário, Haruo Obata foi homenageado pela cidade natal Prefeitura de Hiji

Os desastres naturais no Japão costumam deixar um rastro de destruição e, na sequência, atrair centenas de voluntários de diversos cantos do país com o mesmo espírito altruísta. É como um ciclo, que vem se repetindo com mais frequência este ano devido à quantidade de tufões, terremotos e enchentes.

Munidos de luvas, máscaras cirúrgicas, pás e trazendo o próprio lanche, eles chegam dispostos a prestar todo tipo de ajuda. As tarefas vão da retirada de entulhos a limpeza de imóveis e são executadas em grupo de pessoas que chegam anônimas.

A exceção é Haruo Obata, de 78 anos, que desde agosto passou a ser saudado como novo herói japonês. Ele ganhou fama nacional depois de encontrar um garoto de 2 anos perdido havia três dias em uma montanha, em Yamaguchi.

Obata é de Oita, cidade ao sul do Japão, e tinha ido à província vizinha de Yamaguchi para participar da busca em massa. Sozinho, ele conseguiu encontrar a criança no bosque e passou a ser chamado de “supervoluntário” com a repercussão do caso.

Mas não é a fama que busca esse japonês de 1,61 de altura e 57 kg. Obata diz que sua missão é ajudar as pessoas a caminharem para a frente. “Afinal, a vida é preciosa e única”, afirma. Outra expressão de que gosta muito é “o amanhã sempre virá”, escrito a caneta no capacete que usa nos locais onde faz voluntariado. “O importante é manter o otimismo e olhar para o alto, mesmo em um cenário de tragédia”, fala.

 

Cidade de Soja, no sul do Japão, enviou cobertores a Hokkaido um dia depois do terremoto atingir o extremo norte

Cidade de Soja, no sul do Japão, enviou cobertores a Hokkaido um dia depois do terremoto atingir o extremo norte Prefeitura de Hiji

O agora supervoluntário Obata trabalhou em um mercado de peixes durante muitos anos e, já naquela época, realizava pequenas boas ações, como cuidar de bancos de madeira improvisados em montanha.

“Consertava porque tinha medo que alguém pudesse se machucar”, lembra. Ao seu aposentar aos 65 anos, intensificou as atividades voluntárias por gratidão a tudo o que viveu.

Nesta semana, Obata faz os preparativos para retornar à cidade de Kure, na província de Hiroshima, que foi fortemente atingida pelos temporais de julho. Naquele mês, enchentes e inundações deixaram um saldo de quase 200 mortos em onze províncias do oeste do Japão.

Ele deve seguir em sua minivan, usada como moradia ambulante sempre que faz trabalho voluntário.

“É pequeno, mas consigo manter minha privacidade”, diz. Ele come e dorme dentro de seu carrinho azul.

Cada desastre natural que acontece no Japão desperta em Obata a vontade de pegar estrada.

Foi assim nos terremotos anteriores ocorridos em Niigata, anos atrás, e na região Tohoko. Desta vez, contudo, ele pretende deixar a província de Hokkaido — palco de um forte terremoto no último dia 6 de setembro — de lado para se concentrar nas tarefas pendentes em Kure.

Uma delas é a retirada de tatames das casas danificadas pela água.

 

Prefeitura de Soja recebe mil pessoas por dia buscando doações

Prefeitura de Soja recebe mil pessoas por dia buscando doações Prefeitura de Hiji

De hábitos simples, Obata vive com o mínimo. Diz que come não o mais gostoso, mas somente aquilo que faz bem para a saúde. Em suas refeições, nunca deixa faltar arroz e umeboshi (conserva de ameixa). A vida ele tempera com bom humor e otimismo, e recomenda essa receita a todas as pessoas.

A dose de trabalho voluntário pode ser pequena no início. À medida que se aumenta o tempo dedicado a ajudar alguém, ele diz, cresce também a sensação de felicidade. “Qualquer um, em qualquer lugar, deve experimentar o voluntariado. Ele faz bem e torna a vida mais gratificante.”

Uma mão lava a outra

O prefeito de Soja, Souichi Kataoka, acredita que “uma mão sempre lava a outra”, por isso estimula ações de altruísmo na prefeitura.

Hoje, enquanto se recupera dos estragos causados pelas chuvas torrenciais, a cidade sente que está sendo recompensada pelas boas ações.

Doações procedentes de cidades que em outras ocasiões foram ajudadas por Soja chegaram rápido e em grande volume, permitindo inclusive serem divididas com regiões que atualmente sofrem os efeitos do tufão Jebi, que atingiu o país na semana passada, e do terremoto no norte do país.

Na sexta-feira, mil cobertores foram enviados para Atsuma, cidade rural da província de Hokkaido, a mais atingida pelo tremor de magnitude 6,7.

“Vamos ajudar uns aos outros. Essa é a retribuição pelo que nós recebemos”, escreveu o prefeito de Soja em sua conta no Twitter a respeito das recentes doações.

 

O prefeito de Soja, Souichi Kataoka, acredita que 'uma mão sempre lava a outra'

O prefeito de Soja, Souichi Kataoka, acredita que ‘uma mão sempre lava a outra’ Prefeitura de Soja

Essa mão amiga chegou até o Brasil em 2011, quando ocorreram deslizamentos de terra na região serrana do Rio de Janeiro. Em uma semana, a prefeitura de Soja conseguiu juntar uma quantia razoável de dinheiro e destacou um funcionário para levar a doação.

Naquele mesmo ano, não foi diferente quando um terremoto de magnitude 9,0 na escala Richter seguido de um tsunami provocou o desastre nuclear de Fukushima.

O supervoluntário Haruo Obata também deu sua contribuição na ocasião, procurando objetos pessoais das vítimas entre os escombros, principalmente álbuns de fotos na cidade de Minamisanriku, uma das mais severamente atingidas pela tragédia de 2011.

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