“Se eu ouvir um ‘plá’, pulo do carro” | Tenso e esvaziado após conflito, tour na Rocinha narra detalhes da ‘guerra’

“Não está dando para entrar.” Para quem está na carroceria de um jipe de turismo rumo a um passeio na favela da Rocinha, na zona sul do Rio, a frase não é muito animadora. Ainda mais vinda da própria motorista do veículo.

“Não posso me negar a ir, sou funcionária. Mas, se eu ouvir um ‘plá’, eu pulo dessa porra andando.” Os ocupantes do carro riem da franqueza da condutora. Seu colega de trabalho, o guia que leva os visitantes pelos caminhos da favela, contemporiza.

“Posso dizer que a Rocinha, de certa forma, está sob controle. Foi uma das primeiras favelas abertas ao turismo, e ele é muito importante para a vida de muitos ali, para o comércio local”, diz ele.

A conversa na última quinta (5) aconteceu enquanto o jipe –que levava o repórter e o fotógrafo da Folha– esperava por mais dois turistas em um hotel de Copacabana. Cada um pagaria R$ 145 (em dinheiro, ao fim da jornada) por um passeio de três horas pela maior favela do Rio.

Os demais visitantes não apareceram, no entanto. Tal desistência tem sido frequente desde que a Rocinha tornou-se palco de uma violenta disputa de facções por seu controle –história que seria narrada em detalhes pelo guia ao longo do tour.

O conflito entre criminosos levou ao cerco da favela pelas Forças Armadas por uma semana em setembro. terça (10)]”:http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/10/1925846-pm-e-forcas-armadas-fazem-nova-operacao-na-favela-da-rocinha.shtml e quarta (11), tropas do Exército voltaram ao local.

LAJE E BECO

Enquanto sobe para a favela pelas ruas da Gávea, bairro rico da zona sul do Rio, a motorista antecipa o que os visitantes vão ver. “Num dia normal, é um passeio maneiro. Você vai lá em cima, vai na laje, desce por um beco feio pra cacete, tem os meninos que fazem capoeira, tu passa por um lugar que tem os malucos lá, anda pelo comércio.”

A reportagem busca confirmar o óbvio: “os malucos lá” são os traficantes armados? “É, mas, até invadir, ninguém mexia com ninguém. Você só não pode tirar foto deles, entendeu? Só que a favela está em guerra.”

Uma vez no alto do morro, o carro para num ponto de venda de artesanato, de onde também é possível avistar a lagoa Rodrigo de Freitas e o Corcovado, num cenário ótimo para tirar fotos.

“Brasileiro, brasileiro? Bem-vindo à Rocinha” diz um camelô a seus únicos clientes do dia. Sua barraca tem camisetas e quinquilharias desenhadas com o nome e os cenários da favela. Ao lado, outros ofertam pinturas e quadros de artistas locais.

Simpáticos, os vendedores tentam encorajar os visitantes. “Tá tranquilo, a maior paz”, afirma um. Outro grava os forasteiros com o celular para, diz ele, “mostrar para o pessoal que está tranquilo”.

Durante a caminhada que se inicia nesse ponto, a tensão só é perceptível nos detalhes: nos olhares desconfiados, no passo rápido, no grito de “não é para ficar parado de bobeira” que um passante solta quando cruza com os turistas.

IMPREVISIBILIDADE

Ao longo da estrada da Gávea, principal artéria da Rocinha, a favela segue seu ritmo normal. O problema, explica o guia, é a imprevisibilidade, dado que duas facções estão disputando o morro.

Em cima de uma laje com visão panorâmica da favela e da praia de São Conrado, ele faz a radiografia da comunidade. Aponta a área chamada de Roupa Suja, “a parte mais barra pesada, colada ao morro Dois Irmãos”, e as ruas 1 e 2, principais vias internas.

“São as áreas de confrontos. Hoje, a parte de cima está com o Rogério 157, que mudou de facção e agora é Comando Vermelho. E a parte de baixo está com os caras do Nem, da ADA (Amigos dos Amigos). E tem a polícia.”

De fato: ao longo da descida pela estrada da Gávea, é possível avistar a cada 300 m pequenos grupos de policiais com fuzis. Há também veículos do Bope circulando, além do “caveirão”, todo branco, parado em frente à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora).

Diversas empresas oferecem tours pela Rocinha, majoritariamente para estrangeiros. Segundo o guia, antes da crise atual, sua empresa fazia dois passeios por dia, com grupos de oito pessoas, principalmente europeus e asiáticos. “Japonês gosta muito, israelense adora uma favela.”

Um casal de costa-riquenhos havia feito um passeio com o mesmo guia, na segunda-feira (2). Ele foi interrompido após ouvirem tiros.

Na descida do morro, os três foram fotografados e entrevistados por repórteres. Sites e jornais cariocas noticiaram: “Turistas ficam no meio do tiroteio na Rocinha”. O guia foi identificado e não voltou à favela desde então.

“Fiquei com medo de me pegarem e me baterem”, diz. Na saída, ele se benze. Faz isso sempre? “Quando entro e quando saio. Ali é brabo.”

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