Sobre censura às artes | Nosso país está andando para trás, diz Marieta Severo

Sophia, a matriarca já vestida por Marieta Severo nas gravações de “O Outro Lado do Paraíso”, próxima novela das 9, não será a primeira genitora da ficção a rejeitar um herdeiro portador de nanismo – no dito popular, anão. Só para ficar no nosso tempo, Tyrion Lannister, personagem que já valeu indicação de Peter Dinklage ao time de finalistas do Emmy Awards, sofre o diabo nas mãos do pai, Tywin, a quem acaba assassinando, no épico de “Game of Thrones”. Mas é a primeira vez que veremos essa abordagem em novela. Afinal, anão só entra na TV para fazer graça em programa de auditório.

Além de Juliana Caldas, que dá vida à filha rejeitada de Sophia, Marieta se verá mãe dos personagens de Grazi Massafera e Sérgio Guizé, ambos fiéis ao caráter ruim da mãe. Com estreia marcada para o dia 23, a trama de Walcyr Carrasco sob direção de Mauro Mendonça Filho promete trazer Marieta na performance de grande vilã, uma mulher que não só incentiva o casamento do filho para se apossar da herança da noiva, como provoca a internação da nora (Bianca Bin), até afastá-la dos negócios da família. Questionada sobre o que seria para ela o seu outro lado do paraíso, a atriz, que se opõe veementemente à censura praticada contra exposições de artes encerradas e recusadas por alguns municípios, diz que seu inferno é o fato de o país estar andando para trás. “Não tenho mais idade pra isso (censura). Vou fazer 70 anos e já vivi isso”, disse ela a um grupo de repórteres presentes na entrevista coletiva de lançamento da novela, no Rio.

Como vem sendo esse retorno às novelas das 9?
Marieta Severo – Eu fico sempre com saudade de trabalhar, independentemente do horário. Eu posso estar em qualquer horário que eu estou feliz. Claro que eu sinto que existe uma expectativa em torno desse horário em questão, que é chamado de horário nobre. É o momento que tem mais gente em casa assistindo. Eu sempre tive e tenho cada vez mais uma capacidade de trabalhar fora dessas expectativas. Elas estão por aí. Mas não estão aqui em mim. Eu quero sempre fazer o meu trabalho da melhor maneira possível. Um personagem novo sempre vai mexer com as suas inseguranças, será que vai dar certo? ‘Ai, meu Deus, será que é um bom caminho?’. Nessa coisa da criação, é assim mesmo. Que é inquieta. Eu sei que eu tenho todos os elementos de segurança à minha volta, é o que me interessa.

 É uma personagem bem extrema, né?
MS – Eu acho essa personagem o retrato da nossa época. Ela é muito moderna, ela é de uma atualidade extrema. O grande valor da vida dela é o poder do dinheiro. Para ter o dinheiro, ela faz qualquer coisa. Ela é ambiciosa. Ela acha que o dinheiro é o valor absoluto na vida. Você reconhece isso em algum lugar. Não tem nada mais assustador que a realidade hoje em dia. A ficção não consegue chegar aos pés da realidade. A realidade está avassaladora. O ser humano está fechando o horizonte. Uma pena!

 A Sophia é a grande vilã da trama?
MS – O negócio é o seguinte, eu não consigo fazer um personagem se ela é vilã ou não. Se ela tem responsabilidade de ser uma grande, uma média, ou uma grande vilã. Isso realmente não faz parte. Eu não penso em nenhum minuto nisso. Eu penso no seguinte: Que mulher é essa?  Quem é essa Sophia? Quais são os valores da vida dela? Como ela pensa? Quem ela é? Essas coisas, pra você criar uma pessoa, né? Afinal das contas, um personagem nada mais é do que uma pessoa. Eu sei que ela é uma mulher com poucos escrúpulos. Ela é muito inescrupulosa. É uma mulher que os valores de vida dela são todos em função do dinheiro, do poder financeiro, que ela acredita nisso. Ela acredita que nada a impede de chegar aos objetivos dela. Se tem que comprar gente no caminho, ela compra, se tem que subornar, ela suborna. Eu não sei até onde ela vai. Vai depender do Walcyr Carrasco. É ma mulher do centro do Brasil, que tem poder, que tem dinheiro, quem tem uma ascendência sobre essa sociedade local, que é imitada ali. Que é meio modelo. Eu penso nessas coisas. Como ela é com esses filhos? Que tipo de mãe ela é, né? Ela tem uma filha anã e nega isso. Quer dizer, eu não sei se ela é uma vilã. Que ela não é uma fofinha, ela não é.

Ou não será tão adorada como suas últimas personagens…
MS – Tenho impressão que a Fanny de ‘Verdades Secretas’, perto Sophia é coisa pequena. O que a Fanny fazia ali só era prostituir aquelas meninas. Ela ajudava aquelas meninas a comprar o apartamento e tudo mais. Mas ela não era tão ilimitada como me parece a Sophia. A Sophia me parece um personagem sem limites. É aquele tipo de pessoa que para chegar aonde quer, não ver problema no caminho. Não há nada que a retenha, que vá impedi-la de chegar aonde ela quer. Sabe?. É isso.

Você consegue ver algo bom nela?
MS – 
Ela ama os filhos, do jeito dela. Ela vive em função dessa família, ela usa a família como pretexto para ter esse dinheiro (da exploração das pedras). Ela quer manter esse status, dentro dos valores dela, ela acha que está agindo em função da família e dos filhos. Vocês também vão ver como é que são esses filhos. É uma família um tanto disfuncional, o que me parece.

A trama vai substituir um novelão de Gloria Perez, após alguns fracassos de audiência…
MS – 
As novelas não foram tão bem, assim de público. Um sucesso e um fracasso não se medem pela audiência. Tem novelas fantásticas, de alta qualidade artística, que não caíram muito no gosto do público. O gosto do público é um índice. É claro que numa televisão, numa empresa e tal, isso conta muito. Mas acho que para nós, que fazemos, não tem que ser um dado absoluto. A gente brinca muito com isso. A gente está entrando depois de um sucesso avassalador da Glória Perez, maravilhoso em todos os sentidos. É uma novela que abordou temas atualíssimos. Sem falar na criatividade da Glória, na humanidade dela. É claro que é uma responsabilidade grande substituir essa trama. Mas é muito bom que a gente entre com um público muito aquecido, muito voltado para a novela. Eles entregam também a peteca pra gente lá no alto. Eles entregam a bola maravilhosa. A gente está fazendo tudo para poder honrar isso. Agora, o que vai acontecer, eu, particularmente, me preocupo com o trabalho. Eu sei que tenho um autor de primeira, diretores incríveis, de um empenho sensacional. Além do elenco delicioso, forte. Aí vamos nós. Dar certo ou não é outra história. Eu, particularmente, penso pouco nisso.

Você assiste ‘A Força do Querer’?
MS – Assisto! Eu acompanho a novela quase toda. Eu adoro a Glória. Eu tenho particular carinho por ela, e admiração. Mas tenho acompanhado essa reta final, sim. 

Na sua percepção, o que  marcou você nessa trama da Glória?
MS – Eu acho que a Glória foi por vários caminhos. O assunto trans me comoveu muito. A maneira como ela conduziu isso, a maneira como ela colocou o público dentro das emoções desse personagem. É tão importante isso, nesse momento atual que estamos passando. A gente está vivendo um momento tão careta. Tão careta, tão retrógrado, tão de fechamento. Né? Então, de repente, ela ter colocado não racionalmente o tema, mas ter colocado por dentro do humano, é lindo. Fora as outras histórias que eu gosto.

Como tem visto a censura a exposições de arte?
MS – Isso é de uma tristeza inenarrável. Eu não tenho mais idade para passar por isso de novo, gente! Eu tenho 70 anos, pelo amor de Deus! O que é isso? A gente viveu isso na ditadura. É horrível você viver com censura. Não vamos brincar com isso, pelo amor de Deus. É muito grave, é muito sério. É horrível o espaço que essas pessoas retrógradas, caretas, de mentes fechadas, estão tendo de fechar por uma exposição. O que é isso? Isso é revoltante. Isso não pode existir. Não vá! Como a televisão, não gosta, muda de canal, malandro. Vai ver outra coisa. É assustador. Para mim, é um motivo de tristeza, de medo, de pânico. De pensar que a gente está andando para trás. E tem um pessoal jovem regredindo. Eu acho que com 50 anos, eles vão estar doidões. Tudo pelado no meio da rua.

Qual é o outro lado do seu paraíso?
MS – Ai, Jesus, que pergunta difícil. Meu outro lado do meu paraíso é pensar que o meu país está andando para trás. É isso. Juro por Deus, isso está sendo o meu inferno. O outro lado do paraíso é o inferno. Esse é o meu inferno.

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