Tim Vickery: O estádio que vai deixar saudades em Londres – e o que ele conta sobre a imigração na cidade

Eduardo MartinoDireito de imagem Eduardo Martino

A alma dos Jogos Olímpicos se encontra na pista de atletismo: quem são o homem e a mulher mais rápidos do mundo? Quem consegue pular mais alto ou mais longe? Portanto, o centro do planeta na segunda semana de cada Olimpíada é o estádio que sedia esses eventos.

Aí tem um problema. Porque precisa ser um bom estádio – mas também um estádio viável. E durante o ano todo, atletismo não tem um público suficiente para encher o lugar. Por isso, na maioria dos países, a grande esperança para essas arenas é o futebol.

O Engenhão, lar do atletismo na Rio 2016 e construido para os Jogos Pan-Americanos de 2007, virou a casa do Botafogo. E o estádio de atletismo em Londres, construído para os Jogos de quatro anos atrás, também está prestes a ter o futebol como sua atração principal. A partir da próxima temporada, será a casa do West Ham – nesta semana, o clube jogou pela última vez em seu estádio tradicional, o Upton Park, seu lar desde 1904.

É uma viagem curta – somente 5 km separam o velho estádio do novo, ambos no leste de Londres. Mesmo assim, a saída do clube de Upton Park esta tirando do bairro uma fatia gostosa de sua história social.

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Image caption Torcedor do West Ham se preparando para uma partida em Upton Park; equipe está de mudança para estádio olímpico

O West Ham nasceu em 1895, com o nome original de Thames Ironworks, fundado por trabalhadores de um estaleiro no Rio Tâmisa. Sempre foi um clube com raízes muito fortes na comunidade do leste de Londres – mas, com tempo, a comunidade muda.

Nas ultimas décadas, os estaleiros e as docas fecharam, e a velha classe operária branca, tradicional base da torcida do West Ham, mudou-se para bairros e cidades mais afastados. Com a saída deles, chegaram muitos imigrantes, especialmente de Bengal, uma região hoje dividida entre Índia e Bangladesh.

Uma visita a Upton Park em um dia de um jogo é uma amostra fascinante do dinamismo de Londres. As ruas perto do estádio têm as cores e cheiros do subcontinente indiano, mas a cada duas semanas um exército em vermelho e azul (as cores do West Ham) volta para o bairro onde antes moravam os seus pais ou avós, para torcer pelo seu time.

Trata-se de um contraste fascinante, que irrita os inimigos de imigração, aqueles que ignoram o fato indiscutível de que esse processo faz parte do DNA de Londres, especialmente o leste da cidade.

Em 1650, houve uma onda de judeus vindos da Espanha e Portugal, logo seguida pela chegada importante dos Huguenots, protestantes de Franca, trazendo grandes habilidades com tecidos.

Image caption Brick Lane é um símbolo da imigração e do multiculturalismo no leste de Londres

Depois vieram católicos irlandeses, que ralaram na construção civil. No final do século 19, chegaram muitos judeus fugindo da perseguição na Polônia e na Rússia – e, depois da segunda Guerra Mundial, houve o deslocamento dos bengalis para a leste de Londres. Numa esquina da Brick Lane, uma rua famosa da região, tem um prédio que antigamente era uma igreja dos Huguenots, que depois virou uma sinagoga e hoje em dia é uma mesquita.

E assim segue a dança, com cada povo contribuindo para fazer o ritmo mais interessante. O baile não vai parar agora, apesar dos esforços de nacionalistas ignorantes. Londres acabou de eleger um prefeito filho de imigrantes paquistaneses.

Mesmo assim, vou sentir falta das ruas perto do estádio de Upton Park nos dias de jogo. Era um programa que eu sempre indicava para brasileiros curiosos em aprender sobre a história social de Londres no século 20. O West Ham ganha um estádio novo e grande no bairro de Stratford, mas a cidade perde um momento de encontro fascinante entre o seu passado e o seu presente.

  • *Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick

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