VERGONHA RELATADA

Brasília - Deputado Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), relator da denúncia contra Temer na CCJ da Câmara, fala à imprensa (Wilson Dias/Agência Brasil)
Deputado Bonifácio de Andrada, relator da denúncia contra Temer na CCJ da CâmaraWilson Dias/Arquivo/Agência Brasil
 

*artigo publicado no jornal Correio Popular, de Campinas/SP, em 17/10/2017. Clique aqui para ver a matéria

Superou-se em demagogia, escárnio do povo e desrespeito a instituições fundamentais à cidadania, mormente ao Estado Democrático e de Direito: esta é visão que qualquer cidadão que conheça minimamente a história política recente do país tem do parecer do Deputado Federal Bonifácio de Andrada/PSDB, acerca do aceite ou não da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, oferecida pelo Ministério Público Federal.

Agora é compreensível porque um deputado em fim de carreira foi escolhido para tal missão; para defender ardorosamente um presidente acusado de corrupção e cercado de ministros na mesma condição e, ainda realizar, em nome de um parlamento apodrecido, um desabafo elitista, corporativista, que afronta outras instituições fundamentais ao Estado Democrático e de Direito, com impressionante desfaçatez.

A afronta ao povo e ao “espírito” da Constituição vigente é tamanha, que o parlamentar relator se dá o direito de criticar de forma ácida a Carta Magna vigente, tecendo elogios ao texto daquela nascida em 1946, cujo teor praticamente elevava à condição de deuses muitos os parlamentares, em detrimento do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Judiciária.

Aliás, é repulsiva a forma como o relator se refere às absurdas e exageradas prerrogativas parlamentares vigentes sob o manto da Carta de 46, demonstrando clara preferência por um Judiciário fragilizado e dependente, e pela quase inexistência de fiscalização do poder público, em razão de um Ministério Público menor em prerrogativas e expressão.

Se havia alguma dúvida de que este congresso estava podre, agora ela foi sanada.

Valer-se de um relatório dessa importância para o país, para atacar as únicas instituições que têm conferido um pouco de dignidade e respeito ao nosso país, dentro e fora dele, como o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal, é o mesmo que atirar com um canhão contra a Legalidade e a Probidade no trato da coisa pública!

É triste e decepcionante que o PSDB tenha escolhido um parlamentar que pense dessa forma para ser o relator do processo, pois é possível dizer que ele expressa, também, a visão do próprio PSDB acerca dos fatos!

Ou seja: será que o partido se valeu de um modo diferenciado para expressar seu desejo de ver paralisada a Polícia Federal, calado o Ministério Público Federal, além de anestesiado o Poder Judiciário? Será que, apesar de todas as prisões, delações, recuperação de recursos surrupiados e exposição de políticos antes impolutos, nenhum efeito surtiu na consciência dos congressistas? Parece que não.

Como queremos um país mais honesto, democrático e responsável, se um parlamentar claramente faz crer como absurdo o fato de um presidente da república ser investigado pela Polícia Federal? Desde quando uma instituição democrática deve render-se ao poder temporário de um governante, a ponto de eximi-lo de possíveis malfeitos?

Vivemos, realmente, no reinado da rainha de copas, em meio à festa do Chapeleiro Maluco, porém sem a menor perspectiva de uma Alice para nos salvar!

Caso o parlamento vote pela aprovação dessa peça nefasta a qual muitos chamam de relatório, não há dúvida de que a lúdica e reprovável idéia de que civis não têm condições de governar o país, ou de colocá-lo nos trilhos, ganhará cada vez mais corpo nas redes sociais podendo chegar com força às ruas e, quem sabe, até ameaçar a ordem (ou desordem) vigente.

Com os políticos e administradores públicos que mandam no país, vemos o patriotismo sucumbir ante a desilusão e o sentimento de impotência do povo; do mesmo modo, verifica-se um esforço cada vez maior dos parlamentares em bloquear a efetividade das ações de instituições fundamentais ao Estado Democrático e de Direito que são o Poder Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal, face a montanha de crimes e a desfaçatez de “honrados corruptos”.

Aliás, essa expressão refere-se ao título do livro de autoria do jornalista americano Walter Goodman: “ Os Honrados Corruptos – Os Escândalos na grande Indústria e no Governo”. Recomenda-se a leitura.

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